terça-feira, 26 de maio de 2009

Filtro

Não acredite em tudo o que vê. Eu poderia resumir a isso o que venho dizer hoje aqui, mas é pouco demais e já sinto certo cansaço de frases feitas que têm todo um conteúdo próprio, ou que parecem ter, mas no fim fica sempre algo no ar. Como quero explorar um pouco mais, começo justificando o porquê não devemos acreditar em tudo o que vemos: Porque em absolutamente tudo se esconde algo, e porque nossa mente adora pregar peças em nossas visões. Quem nunca se deixou levar pelo que foi dito por alguém, pelo o que viu, por aquilo que leu? Não sei, essas são minhas constatações que não precisam ser levadas tão em conta ( mas não deixo de acreditar que pode ser verdade).
O que busco dizer é que nem tudo é realidade transparente. Não acredite sem ao menos questionar, ser crítico é a solução dos desenganos, afinal, nem tudo é o que parece ( e eu dizendo que estava cansada das frases feitas...).
Todo dia nos deparamos com uma série de situações em que devemos julgar, criticar, entender.Fácil não é, mas lidar se torna menos cruel e dificultoso se filtrarmos um pouco o que vemos por aí. Os olhos, infelizmente, não possuem essa capacidade, cabe a nós com inteligência e sensilidade separar o que realmente é relevante para nossas vidas. Basta a consciência de que há sempre algo a mais, aparências nunca são o suficiente e sim, elas enganam.

domingo, 17 de maio de 2009

Flores mortas

Na vida a gente só aprende depois de lutar muito se debatendo na correnteza. Só tropeçando e caindo por todo o desequilíbrio... pra depois se levantar.

Esse vai ser um texto sem condução, eu não quero trabalhar muito no que vou escrever e nem analisar sua coerência, só vou levar a caneta ao papel nesse silêncio todo pra fugir um pouco do que vejo, do que sinto e de toda a falta que a vida me traz, de toda certeza desonesta que começa e acaba em mim, de toda imaginação construída com base em minhas próprias ilusões: esteve tudo bem, está tudo bem, vai ficar tudo bem, nunca deixou de estar.

Volto um pouco no antes e me afogo. São cartas, telefonemas, presenças, faltas, conselhos, choros, brincadeiras, medos, olhos virados que não me garantem nada. O que me impede de queimar todo esse arquivo?

Nessas horas me pergunto o que será do amanhã, meu e dos outros. E e lembro que já ouvi nessa vida algum" pra sempre" de mentirinha que na época era. E continuamos jogando ao vento o que não sabemos se existe e que talvez se acabe. Com convicções incertas construi as velhas amizades que hoje, com absoluta certeza, viraram pó.

Eu jogo no mar, dizem que purifica, o mar leva embora e a onda já não traz, porque o que deixou de ser o mar toma. Só observo a maré e as ondas que quebram, e peço pra continuarem.

Não quero parecer alguém que não seja eu. Não me perderei em meio à multidão me transformando em um deles, não me identifico com novas opiniões fáceis, manipuláveis, mutiláveis, desgastadas, poucas e nada sinceras e que faltam, desfiando, derretendo, dissolvendo-se por fim aos montes. Me recuso a ser o rosto que não sente, não expressa, que aceita. Me guardo em mim. Porque ser como os outros é um papel que qualquer um faz bem nessa trama que é a vida.




quarta-feira, 13 de maio de 2009

É Tudo questão de costume...

Às vezes a vida da gente só é rotina sem tamanho e com tempinho marcado. Acho que isso tudo é só pra nos controlarmos, pra não sairmos da linha que todo mundo pretende seguir pra ter tal vida, indo talvez para o mesmo lugar, querendo as mesmas coisas. Assim se forma uma bola de neve constante e inconstante ao mesmo tempo... constante porque é um dia após o outro de realizações (literalmente, são nossos atos e nossas realizações pessoais) , são coisas que fazemos e coisas que esperamos que sejam devidamente reconhecidas ( ou nem isso, apenas para sabermos que fizemos o certo ou que caminhamos sem tropeçar muito, mais até do que achavamos que poderíamos conseguir antes). Já a inconstância se deve ao que vamos fazer em cada dia, nem todos são iguais, nem todas as pessoas são iguais e a cada dia o assunto é outro, o desafio idem, mas somos obrigados a fazer as mesmas coisas de sempre. Dessa rotina toda vem o costume. Quando nos acostumamos a algo, mesmo que não seja útil, é fácil se acomodar, porque a mudança exige certo esforço e quem disse que todo mundo se sente confortável com isso? Posso dizer que eu não me sinto, mudar sempre foi algo um tanto assustador, sou alguém que se contenta com o que me agrada e que vê a mudança como um passo grande...mas quando a encaro, pronto. Consigo vencer, me ajeitar aos pouquinhos e procurar o lado bom, nem sempre tão explícito como meu espírito não muito favorável ao que não posso controlar gostaria, mas ainda assim sinto que posso lidar com o que vai vir a ser um costume. E é aí que caio em contradição muitas vezes, como pode uma pessoa que não é fã de mudanças questionar a rotina e o que ela me traz? Há um texto que li e que acho que vale a pena copiá-lo aqui, trata exatamente de se acostumar com a rotina imposta pela vida, ou nem tanto por ela.
"A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E porque à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.A gente se acostuma a acordar de manhã, sobressaltado porque está na hora.A tomar café correndo porque está atrasado. A ler jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíches porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia. A gente se acostuma a abrir a janela e a ler sobre a guerra. E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E aceitando as negociações de paz, aceitar ler todo dia de guerra, dos números da longa duração. A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto. A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que paga. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com o que pagar nas filas em que se cobra.A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes, a abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema, a engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.A gente se acostuma à poluição. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às besteiras das músicas, às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À luta. À lenta morte dos rios. E se acostuma a não ouvir passarinhos, a não colher frutas do pé, a não ter sequer uma planta.A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente só molha os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda satisfeito porque tem sono atrasado. A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito.A gente se acostuma para poupar a vida.Que aos poucos se gasta, e que, de tanto acostumar, se perde de si mesma."