Às vezes a vida da gente só é rotina sem tamanho e com tempinho marcado. Acho que isso tudo é só pra nos controlarmos, pra não sairmos da linha que todo mundo pretende seguir pra ter tal vida, indo talvez para o mesmo lugar, querendo as mesmas coisas. Assim se forma uma bola de neve constante e inconstante ao mesmo tempo... constante porque é um dia após o outro de realizações (literalmente, são nossos atos e nossas realizações pessoais) , são coisas que fazemos e coisas que esperamos que sejam devidamente reconhecidas ( ou nem isso, apenas para sabermos que fizemos o certo ou que caminhamos sem tropeçar muito, mais até do que achavamos que poderíamos conseguir antes). Já a inconstância se deve ao que vamos fazer em cada dia, nem todos são iguais, nem todas as pessoas são iguais e a cada dia o assunto é outro, o desafio idem, mas somos obrigados a fazer as mesmas coisas de sempre. Dessa rotina toda vem o costume. Quando nos acostumamos a algo, mesmo que não seja útil, é fácil se acomodar, porque a mudança exige certo esforço e quem disse que todo mundo se sente confortável com isso? Posso dizer que eu não me sinto, mudar sempre foi algo um tanto assustador, sou alguém que se contenta com o que me agrada e que vê a mudança como um passo grande...mas quando a encaro, pronto. Consigo vencer, me ajeitar aos pouquinhos e procurar o lado bom, nem sempre tão explícito como meu espírito não muito favorável ao que não posso controlar gostaria, mas ainda assim sinto que posso lidar com o que vai vir a ser um costume. E é aí que caio em contradição muitas vezes, como pode uma pessoa que não é fã de mudanças questionar a rotina e o que ela me traz? Há um texto que li e que acho que vale a pena copiá-lo aqui, trata exatamente de se acostumar com a rotina imposta pela vida, ou nem tanto por ela.
"A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E porque à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.A gente se acostuma a acordar de manhã, sobressaltado porque está na hora.A tomar café correndo porque está atrasado. A ler jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíches porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia. A gente se acostuma a abrir a janela e a ler sobre a guerra. E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E aceitando as negociações de paz, aceitar ler todo dia de guerra, dos números da longa duração. A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto. A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que paga. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com o que pagar nas filas em que se cobra.A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes, a abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema, a engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.A gente se acostuma à poluição. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às besteiras das músicas, às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À luta. À lenta morte dos rios. E se acostuma a não ouvir passarinhos, a não colher frutas do pé, a não ter sequer uma planta.A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente só molha os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda satisfeito porque tem sono atrasado. A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito.A gente se acostuma para poupar a vida.Que aos poucos se gasta, e que, de tanto acostumar, se perde de si mesma."