quinta-feira, 30 de abril de 2009

Sobre a linguagem

"A linguagem - a fala humana- é uma inesgotável riqueza de múltiplos valores. A linguagem é inseparável do homem e segue-o em todos os seus atos. A linguagem é o instrumento graças ao qual o homem modela o seu pensamento, seus sentimentos, suas emoções, seus esforços, sua vontade e seus atos, o instrumento graças ao qual ele influencia e é influenciado, a base última e mais profunda da sociedade humana. Mas é também o recurso último e indispensável ao homem, seu refúgio nas horas solitárias em que o espírito luta com a existência, e quando o conflito se resolve no monólogo do poeta e na meditação do pensador. Antes mesmo do primeiro despertar de nossa consciência, as palavras já ressoavam a nossa volta, prontas para envolver os primeiros germes frágeis de nosso pensamento e a nos acompanhar inseparavelmente através da vida, desde as mais humildes ocupações da vida cotiana aos momentos mais sublimes e mais íntimos dos quais a vida de todos os dias retira, graças às lembranças encarnadas pela linguagem, força e calor. A linguagem não é um simples acompanhante , mas sim um fio profundamente tecido na trama do pensamento; para o indivíduo, ela é um tesouro da memória e a consciência vigilante transmitida de pai para filho. Para o bem e para o mal, a fala é a marca da personalidade, da terra natal e da nação,o título de nobreza da humanidade. O desenvolvimento da linguagem está tão inextricavelmente ligado ao da personalidade de cada indivíduo, da terra natal, da nação, da humanidade, da própria vida, que é possível indagar-se se ela não passa de um simples reflexo ou se ela não é tudo isso: a própria fonte do desenvolvimento dessas coisas. "
( Louis Hjelmslev, linguista dinamarquês)

sábado, 25 de abril de 2009

Promessa

Subiu no ônibus e já estava ansioso sem querer. Queria que o tempo passasse rápido, voando, aquela espera toda estava impossível. Ultimamente tudo andava impossível, pelo menos para ele, sufocando aos poucos naquele ambiente que ele não conhecia, e como não queria mais ficar ali, estava muito pouco disposto a conhecer, tinha medo de se acostumar.
Deu graças a Deus que iria voltar, dessa vez de verdade, talvez pra sempre. Ia ser surpresa pra todos, quanta coragem! Depois de todo o tempo, depois de toda a sorte do mundo, desistiu?
A viagem de volta demorava horas, ele sabia. Não conseguiu dormir no ônibus quente cheio de gente. Pra onde ia toda aquela gente? Gente dormia, comia, falava e falava e não parava de jeito nenhum de falar e a mulher contava da neta que tinha nascido e o homem falava em processar a empresa por causa do dinheiro. Era sempre o dinheiro. E a criança no colo da mãe no banco de trás chorando abafado, devagarinho aquele choro de sono que criança chora e mais parece gato que mia alto no telhado de noite.
Tudo aquilo se misturava no pensamento dele junto com as memórias de antes e a expectativa do depois, a ansiedade, a vontade de ir chegando e nem se justificar mais, só abraçar todo mundo de novo, beijar todo mundo de novo. Estava com aquela esperança boba de ter tudo, de novo.
E de tanto pensar cansou e cochilou um pouco, e mesmo assim conseguiu sonhar. E foi com a casa, com a família toda e com os amigos antigos da infância, com as brincadeiras na rua da Glória, da Dona Célia de olho pela janela só pra saber quem jogou bola no jardim dela e destruiu as roseiras, do moço que vendia o sorvete barato em dias de calor, dos mergulhos no rio, de todas as travessuras de criança. Sonho.
E quando tudo parecia realidade próxima, o sonho se misturou todo, no meio de toda a bagunça de rostos , de vozes e de coisas do sonho surgiu a promessa com força. Pesadelo.
Acordou assustado com aquele nó na garganta, no peito, em tudo. O sonho ruim trouxe de volta de longe do fundo do que ele já não lembrava mais e que evitava. E junto, ela surgiu.
Voltou como se um dia tivesse ido, mas isso nunca aconteceu. Pelo menos isso ele cumpriu, não conseguiu esquecer, bem como ele tinha dito, esquecer não dava.
Passa o tempo sempre e as horas voaram. Parou.
Desceu desconcertado, não recuperado dos devaneios da viagem. Olhou bem ao redor, procurando um rosto conhecido, um alguém. e entre todos os rostos que não eram dele, lá estava ela, a dona de tudo, a dona da promessa.
Ele tinha imaginado que a levaria com ele, ela tinha pensado que ele voltaria muito, muito antes pra ela. Promessa, e todo mundo sabe que promessa é dívida, era coisa sagrada.
E foi só o que ela disse a ele. Mas ele não pode dizer o que tanto queria, emudeceu como se realmente não tivesse nenhuma intenção de estar ali. Porque ele foi, ficou, voltou e o motivo todo mundo sabia, era por causa do dinheiro, era sempre o dinheiro.
O olhar dela permanecia o mesmo de anos atrás, imutável, do mesmo jeitinho que levava o mundo todo dentro. E os olhos dele a seguiram depois do abraço sozinho sem beijo de saudades. Esse permaneceu até hoje guardado, porque a dívida ele não conseguiu pagar.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Sobre sentir e escrever

Interlúdio

Uma palavra caída

das montanhas dos instantes

desmancha todos os mares

e une as terras mais distantes.

( Cecília Meireles)


Já foi o tempo em que eu complicava tudo. Hoje vejo que posso encarar a vida de uma forma mais simples, sem ter que escravizar a minha mente com dúvidas e medos. Hoje sei que consigo olhar um belo dia quente de sol e pensar “ puxa, tenho que aproveitá-lo” ao invés de “com certeza vai chover de tarde com todo esse calor”, transformei-me, inverti os pensamentos inuteis, aqueles não aproveitáveis e vazios. Talvez porque obtive consciência de que devo aproveitar o hoje, uma ideia que me inspira a ser melhor. Carpe Diem. Tudo é efêmero, fato que assusta, mas verdadeiro. Se não aproveitar o agora, como é que poderei aproveitar o que está por vir? Através das palavras de Shakespeare, constato uma verdade: o futuro tem o costume de cair em meio ao vão.

Deixei certas dúvidas de lado e me vejo aqui, escrevendo como forma de colocar tudo em ordem. Eu poderia expressar os motivos que me levaram a escrever, se é que há algum motivo que funcione como justificativa. Talvez não exista, não concretos, não absolutos, e nem sequer um em especial. E nem essa justificativa precisa existir.

Quem sabe eu possa chamar isso que me acontece de inspiração, aquela que vem e não se sabe de onde, nem porquê. Se bem que eu sei ( sei? Acho que sinto) o que é capaz de provocá-la. Algumas pessoas me inspiram e talvez ainda nem tenham consciência disso, revelo aqui então uma vontade: eu espero que descubram, para não desistirem, não desanimarem, e continuarem, sempre. Mas não quero que se cobrem por isso, não encarem como uma responsabilidade, pelo contrário, que deixem simplesmente acontecer, naturalmente, como as melhores coisas da vida.

Um momento, um gesto, uma palavra, tudo é capaz de trazer a inspiração assim, sem aviso, sem mais nem menos, sem precisar dizer a que veio, mas aparece de um jeito que é impossível recusar, ignorar, deixar pra depois. Então admito que espero ter a sensibilidade necessária para deixá-la entrar, se aconchegar, vir mais perto, tudo para que se demonstre e se mostre, plena.

Agora percebo que escrevo como um modo de expressão. É isso, não somente, mas é. E me utilizo disso para expressar ideias que costumo guardar para mim, já que sempre fui uma pessoa muito mais do tipo que observa do que aquela que pensa e logo fala. Talvez eu esteja começando a acreditar que preciso aproveitar o que tenho e que as observações que constituem o mix de que sou feita podem ser divididas, não mais guardadas, empoeirando. Agora vejo uma necessidade a mais, um desejo de saber se tudo isso faz realmente um sentido, ou nenhum, e se não está errado fechar as constatações num pedaço de mim. As janelas da alma se abrem nesse momento, mandam embora o escuro, trazem serenidade que inquieta, paradoxalmente, o que esteve aqui desde sempre.

Preciso deixar um pouco do que penso e sinto se mostrar, independente do valor que os outros vão dar para isso. Já não importa. Deixo que pensem o que quiserem, da forma que quiserem. Procuro agora sentir , deixar de lado hesitações e dúvidas que definitivamente não precisam existir quando o que permito agora, talvez involuntariamente até, é deixar que o coração controle a caneta no papel e retire o vazio do branco, mesmo que não faça sentido algum, mesmo que eu não consiga mudar absolutamente nada.

Pode ser ainda que ninguém sequer leia as minhas palavras. Mas elas continuarão, imcompletas. Isso porque sempre haverá algo a mais que não foi dito, ou que ficou subentendido, porém mesmo falhando assim, sem sucesso em organizar o que busco expressar, fica a expectativa de que alguém um dia se identifique o suficiente para guardar na memória algo que tentei dizer aqui, e isso já vale.

Desejo agora começar a evoluir, e sei que o importante mesmo é crescer, com a sensação revigorante de ser fiel à própria essência, ser único, saber que se está de fato tentando alcançar o que se acredita de verdade, e como diz um amigo, ter enfim a felicidade de saber que a consciência se mantém limpa. Buscarei ser eu mesma o tempo todo, respeitar o que sempre acreditei, escrever com a sinceridade necessária para amadurecer, ter a sensação de que há muito por vir, porque sei que tenho muito o que aprender e estagnar seria desperdício, não quero me contentar com o aparentemente suficiente, pois nunca é, ele não existe. Quero mais. Quero que as reflexões se mostrem. Quero que apareçam os sonhos traduzidos.