sábado, 25 de abril de 2009

Promessa

Subiu no ônibus e já estava ansioso sem querer. Queria que o tempo passasse rápido, voando, aquela espera toda estava impossível. Ultimamente tudo andava impossível, pelo menos para ele, sufocando aos poucos naquele ambiente que ele não conhecia, e como não queria mais ficar ali, estava muito pouco disposto a conhecer, tinha medo de se acostumar.
Deu graças a Deus que iria voltar, dessa vez de verdade, talvez pra sempre. Ia ser surpresa pra todos, quanta coragem! Depois de todo o tempo, depois de toda a sorte do mundo, desistiu?
A viagem de volta demorava horas, ele sabia. Não conseguiu dormir no ônibus quente cheio de gente. Pra onde ia toda aquela gente? Gente dormia, comia, falava e falava e não parava de jeito nenhum de falar e a mulher contava da neta que tinha nascido e o homem falava em processar a empresa por causa do dinheiro. Era sempre o dinheiro. E a criança no colo da mãe no banco de trás chorando abafado, devagarinho aquele choro de sono que criança chora e mais parece gato que mia alto no telhado de noite.
Tudo aquilo se misturava no pensamento dele junto com as memórias de antes e a expectativa do depois, a ansiedade, a vontade de ir chegando e nem se justificar mais, só abraçar todo mundo de novo, beijar todo mundo de novo. Estava com aquela esperança boba de ter tudo, de novo.
E de tanto pensar cansou e cochilou um pouco, e mesmo assim conseguiu sonhar. E foi com a casa, com a família toda e com os amigos antigos da infância, com as brincadeiras na rua da Glória, da Dona Célia de olho pela janela só pra saber quem jogou bola no jardim dela e destruiu as roseiras, do moço que vendia o sorvete barato em dias de calor, dos mergulhos no rio, de todas as travessuras de criança. Sonho.
E quando tudo parecia realidade próxima, o sonho se misturou todo, no meio de toda a bagunça de rostos , de vozes e de coisas do sonho surgiu a promessa com força. Pesadelo.
Acordou assustado com aquele nó na garganta, no peito, em tudo. O sonho ruim trouxe de volta de longe do fundo do que ele já não lembrava mais e que evitava. E junto, ela surgiu.
Voltou como se um dia tivesse ido, mas isso nunca aconteceu. Pelo menos isso ele cumpriu, não conseguiu esquecer, bem como ele tinha dito, esquecer não dava.
Passa o tempo sempre e as horas voaram. Parou.
Desceu desconcertado, não recuperado dos devaneios da viagem. Olhou bem ao redor, procurando um rosto conhecido, um alguém. e entre todos os rostos que não eram dele, lá estava ela, a dona de tudo, a dona da promessa.
Ele tinha imaginado que a levaria com ele, ela tinha pensado que ele voltaria muito, muito antes pra ela. Promessa, e todo mundo sabe que promessa é dívida, era coisa sagrada.
E foi só o que ela disse a ele. Mas ele não pode dizer o que tanto queria, emudeceu como se realmente não tivesse nenhuma intenção de estar ali. Porque ele foi, ficou, voltou e o motivo todo mundo sabia, era por causa do dinheiro, era sempre o dinheiro.
O olhar dela permanecia o mesmo de anos atrás, imutável, do mesmo jeitinho que levava o mundo todo dentro. E os olhos dele a seguiram depois do abraço sozinho sem beijo de saudades. Esse permaneceu até hoje guardado, porque a dívida ele não conseguiu pagar.

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